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O teatro das exclusões e a homenagem a um cartunista maravilhoso, por Floriano Martins, Aguhla Revista de Cultura #219, dezembro 2022, Fortaleza, Brasil

 ∞ editorial | O teatro das exclusões e a homenagem a um cartunista maravilhoso

 


00 | O que leremos a título de editorial nesta edição da Agulha Revista de Cultura é parte de uma homenagem nossa ao grande cartunista brasileiro, Luiz Sá (1907-1979). O jornalista João Antonio Buhrer, ao longo de suas conversas através de e-mails com outro magnífico artista, Zuca Sardan, foi anotando suas falas sobre Luiz Sá, por quem sempre teve declarada admiração. Nas últimas semanas conheci o João Antonio e de imediato aceitei a sua proposta, feita em parceria com o próprio Zuca, de publicar esses recortes em nossa revista. Logo pensei que poderíamos ampliar o gesto e ter presente conosco o Luiz Sá como nosso artista convidado, justamente agora que estamos concluindo o último mês de um ano em que todas as edições da Agulha Revista de Cultura foram dedicadas ao Surrealismo em sua visão mais ampla, suas variações, dissidências, desdobramentos. Tomada a decisão nos pusemos os três, Zuca, João e eu, a selecionar as 48 imagens da obra de Luiz Sá, espalhadas por toda a revista. Comecemos pela fala do próprio João Antonio Buhrer, a quem agrademos imensamente.

 Floriano Martins













***

 


Quando conheci Zuca Sardan, via email, há poucos meses, entre nossas conversas fui percebendo o seu grande interesse pelo artista cearense Luiz Sá, um dos grandes nomes da caricatura brasileira, do século XX. A paixão pelo Sá eu também comungo, e por incrível que pareça conheci a obra de ambos ao mesmo tempo. Foi no início dos anos 1980, através do catálogo de uma exposição do Luiz na Funarte. Com o Zuca foi na revista Poesia Livre, em que apareceu ilustrando a capa, na forma de um carimbinho, um curioso desenho de um tocador de realejo, que agora sei foi tirada do livro Visões do Bardo. Por quarenta anos sempre associei um ao outro, e não é que estava certo? Nas minhas conversas por e-mail com Zuca, fui obtendo estes depoimentos memorialísticos dele sobre o artista Luiz Sá, e aí sugeri ao Floriano Martins, que espeta mas não fere, a publicação destes textos nesta sua revista. Também agradeço neste momento ao artista e pesquisador cearense Weaver Lima, grande conhecedor de Sá, ao qual me socorri para mixar e/ou ilustrar estes textos de Zuca. [João Antonio Buhrer]

 

01 | As costelas do reino e seus lugarejos quase invisíveis. Há um abismo plural decidido a devorar cada corpo que passe por ali. A verdade é que acordamos sem saber o que faremos com nosso corpo. Por mais que o espírito professe as suas curvas mais loucas, o corpo pode não passar de um artifício emocionado do descaso. Uma voz escondida no interior de um caixote de madeira prensada. Uma ilusão mitológica dessas que assombram a passagem das horas. Os pares encardidos nos becos fustigando a crueza de um amor banal. O corpo se estreita pelos recantos mais afunilados. Como esses móveis privilegiados da transgressão. Ou o descalabro impotente de certas linguagens desesperadas que se dirigem a um retiro à espera da morte. Como esperar pelo humor da dialética do dia seguinte? Como entender que a diferença pode às vezes não passar de um deslizamento do conflito? Enquanto roçamos nossos corpos no alvoroço da paixão não duvidamos das razões da elipse. Amanhã estaremos uma vez mais nos desconhecendo na obscura intenção de explicar o que cedo ou tarde tornaremos a encontrar. Mas não somos senão artificiais em nossos fogos cruzados. A história não tem antecedentes que a justifiquem ou a ensinem a ser de outro modo. Toda história é uma impostura, uma piada que se desgasta no riso, uma ejaculação de escombros. Sempre que nos debruçamos sobre seu ela, vemos seus fantasmas improvisando o mesmo teatro de exclusões.

 


02 | O farol da patafísica e Luiz Sá, nas palavras de Zuca Sardan

§ Luiz Sá, aqueles números coloridos do Reco-Reco, Bolão e Azeitona são impagáveis, e os anúncios de remédios contra sífilis, são patafísicos!… Valorizo o Luiz Sá como o lançador do cartum patafísico no Brasil, coisa que ninguém percebeu, só raras pessoas ouviram falar de Patafísica, ou de Jarry, do Père Ubu, ou do Doutor Faustrol… (provavelmente tampouco o próprio Luiz Sá). Na minha juventude era só Jorge Amado, o único escritor brasileiro vivo conhecido no estrangeiro, e sobretudo na União Soviética… Uma vez que fui visitar Berlim Oriental, ainda no tempo da Alemanha Socialista, e me interessei em conhecer a Universidade de Berlim (que na divisão da cidade, ficou no lado oriental), falei com um professor, por sinal muito simpático, que era o titular da cadeira de literatura do Brasil. E no meio da conversa, me revelou que ele era especialista em Jorge Amado, que teve várias obras publicadas na DDR, e nem ele nem ninguém na RDA conhecia outro autor… Hoje em dia… o único escritor brasileiro conhecido na União Europeia é o… Paulo Coelho. E a culpa desse descaso é nossa, que não damos um tostão para o apoio cultural…

 

§ Luiz Sá foi e é um ilustrador humorista muito engraçado, que era ativo desde o início da década dos 30s, fez uma longa carreira no jornal infantil O Tico Tico, onde criou a famosa trinca Reco-Reco, Bolão e Azeitona. Inventor de um estilo de bonecos muito engraçados, Luiz Sá aceitava qualquer encomenda, para qualquer assunto. Havia no começo dos 30s uma campanha médica encarregada do combate à sífilis, que seguia no Brasil sendo um flagelo terrível. Luiz Sá aceitou a encomenda sem pestanejar e fez os anúncios contra a sífilis n’O Tico Tico, com os letreiros solicitados pela direção da Campanha, mas… com seus bonecos de uma comicidade irresistível em cenas com diabos de narigão colossal e boca escancarada em enorme gargalhada, e o doente apavorado na cama segurando a garrafa de um xarope contra a tosse, de que o produtor lhe pagara um extra para inserir a garrafa no desenho da sífilis. A direção d’O Tico-Tico, benevolente, e satisfeita com o tutuzinho extra que entrava na caixa, e não vendo nenhuma porcalhada nos anúncios sempre alegres do Luiz Sá, deixava o barco correr… E assim Luiz Sá criou o Humor Patafísico, sem que ninguém percebesse a sua importância para a História da Arte no Brasil. O Tico Tico faliu, esmagado pela concorrência do Gibi (d’O Globo) que trouxe a preço de banana os comic-strips dos USA… Na década dos 50s, Luiz Sá seguiu fazendo seus desenhos, primeiro para charges políticas e esportivas para o cinema no chochíssimo noticiário brasileiro semanal, de que o único sucesso eram as suas charges, e paralelamente para a revista política semanal O Malho, que tinha sua graça. Já no finzinho da vida, Luiz Sá doente, desenhava na cama do hospital para uma revista de humor chamada O Bicho, editada por Fortuna.

Sim, Gordito Fabergé foi grande leitor do Tico-Tico: Luiz Sá com Reco-Reco, Bolão e Azeitona; Max Yantok, creio, desenhava um senhor aristocrático e seu secretário, e um armário cheio de gavetas, donde saiam jacarés, pessoas, elefantes… Faustino e Marocas, dum cartunista americano de excelente traço. Havia o Chiquinho, inspirado num menino louro super-chic, de um cartunista americano de estilo Art-Nouveau… E outros cartunistas com personagens mais brasileiros… coisas que vi há mais de 80 anos atrás, e que lamento nunca houvessem pensado nossos editores em reeditar os preciosos números do Tico-Tico!… Havia ainda a revistinha Gibi, semanal infantil, d’O Globo.

Como espalho desenhos para pessoas amigas na Europa e USA, que não sabem português, prefiro cartuns sem bolhas de letras, para serem internacionais. Salvo em casos que quero fazer alguma graçola idiomática… ataco com bolhas, seja em Português, seja em alguma língua estrangeira macarronizada.

Primeiro de todos, o inventor da história-em-quadrinhos, o caricaturista-poeta Wilhelm Busch (1832-1908), autor das aventuras de dois meninos, Max e Moritz, dois pirralhos que aprontam dez mil travessuras… Os diálogos vinham numa faixa em baixo do quadrinho. O inventor das bolhas (dos balões) foi um desenhista alemão naturalizado norte-americano que se inspirou diretamente de Wilhelm Bush, na virada do sec. XIX para o XX, com dois endiabrados meninos que falavam um inglês alemanizado, e todos os personagens, inclusive o Capitão e a mãe dos dois garotos, viviam em uma colônia alemã nos trópicos… No Brasil, os meninos se chamavam Hans e Fritz. Dos cartunistas brasileiros, o Mestre é o nosso genial Millôr Fernandes… Mas não podemos esquecer Nássara, Jaguar, os Três Ases da Folha SP, e os caricaturista da Careta. Ao longo de toda a primeira metade dos 1900s… o Barão de Itararé que no seu pasquim A Manha rabiscava em cima das fotografias, e se esmerava em poesias macarrônicas.

§ Bravooo, João!… Conforme você já terá notado, na Agulha Revista de Cultura, todo número apresenta um artista plástico homenageado. Você poderia propor que o artista convidado fosse o Luíz Sá, e apresentaria ao Floriano páginas de desenhos do Sá: a) Reco-Reco, Bolão e Azeitona em cores fulgurantes; b) a série patafísica de terror dos desenhos dele para ilustrar pareceres do Instituto Thalassa, Doutor Fulantrol dá conselhos preventivos. Há reproduções de anúncios de remédios que saíram n’O Tico-Tico, tem o de um xarope Torax de uma Dona Tia Preta Pacifé, que é para tosse, mas no anúncio diz que também é eficiente contra a sífilis… e o Instituto Thalassa protesta indignado da irresponsabilidade da Tia Pacifé, não há xarope contra tosse que cure sífilis. Há ainda uma outra doença terrível da época, e o L. Sá apronta um desenho genial, com o Capeta na gruta ferrando o Fulano. Este lado do Terror Festivo, que só o L. Sá soube criar graças à sua alegria espontânea genial, que é o que há de mais SURREALISTA possível. É nesta tecla que deves tocar. E concentrar a iconografia na trinca RBA e nos desenhos da Peste… Não apresente os desenhos esportivos, ou da Girafa Fafá… Concentre-se na série RBA e… nos desenhos medicinais, que, delícia das delícias, saíram no Tico-Tico!…

§ Formidável. Vendo os quadros de uma exposição de Luiz Sá de 1934 você sente o caminho que haverá de tomar seu trabalho, para uma radical simplificação. Luíz passou da pintura para a caricatura certamente por razões econômicas, porque a pintura no Brasil até os 40s não tinha mercado. E a caricatura desde os tempos do Império, pelos jornais despertava grande interesse e os caricaturistas de renome recebiam seu salário. E, na virada do Século, n’O Tico-Tico, o cartunista já podia criar desenhos com maravilhosa explosão de cores, e tal foi o caso do Luiz.

Lembro-me ter lido, há muito tempo, uma reportagem concedida pelo Luiz, em seu leito de hospital, em que ele explicava que os padres lhe disseram que poderia fazer caricaturas de santos, desde que o Santo não aparecesse. Donde lhe veio essa ideia de substituir o Santo por um facho de luz.

Nesta exposição – Galeria de quadros célebres, de 1931 –, há um interessante fundo sócio-político, que o Luiz habitualmente evitava, de modo a não se desviar de sua linha alegre e livre, como tinha sido seu sucesso n’O Tico-Tico. Dos quadros, para mim o mais interessante é o do Padre Tomás assistindo a bela desfalecida Moema… e o caranguejo, à esquerda, de pinças abertas…

Os quadros do Luiz são muito interessantes, mas não creio que pudessem atrair clientes na burguesada chique de então. Precisava vir a Semana d’Arte Moderna, SP, de 22.

Luiz Sá tem um traço de uma leveza e graça inacreditáveis!!! Merciiii!!! Um presentaço pro fim de semana!!! Veio-me a lembrança sua impagável trinca Reco-Reco, Bolão e Azeitona, que vinham na última página d’O Tico Tico!!!… Depois que o Tico-Tico acabou… Luiz Sá começou a fazer umas charges que vinham num jornal documentário de notícias, no início de cada nova notícia… Getúlio discursando, Marechal Dutra, cerimônia religiosa com o Bispo Barrigone, festinha chic, o Zepelim sobrevoando a cidade etc. etc. O que valia da xaropada só as charges do Luiz Sá.

Creio que também foi muito ativo em O Malho, um semanário que tinha em todas as mesas da saleta de espera das Barbearias… Tenho quase certeza que o Luiz Sá era um dos caricaturistas especialistas no Getúlio, assunto delicado e perigoso.

Luiz Sá tem um traço leve, alegre, e magnífico!… Reco-Reco, Bolão e Azeitona é uma obra-prima da nossa HQ que espero um dia receba a edição que merece. Ele nos passou uma mensagem de alegria e fraternidade, bem marcada de brasilidade. Embora não o tenha conhecido pessoalmente, voto por ele uma grande amizade.

Zuca Sardan

Luiz Sá é imbatível. E sua campanha de leite e purgantes e anúncios é realmente impagável. Parece o Sonho de um Brasil que hoje pouca gente entenderia.

Impagáveis e as mais justas possíveis!!! Este texto da Campanha do Leite é de um Humor Visível e Invisível absolutamente extraordinários.

§ Olá, João!, nosso Luiz Sá é de uma atividade assombrosa… A folha de ontem, que me passaste, de 1933, com uma Apologia do Leite… é de um Humor Negro de magistral acaso objetivo. Os bonecos engraçadíssimos e ingênuos do Luiz Sá fazem uma vigorosa campanha pelo leite, por seu destacado valor do para a saúde, que vem envolta numa moldura negra com anúncios sinistros de Elixires, que vieram dar apoio à campanha benéfica do leite, mas também… um à direita é de uma bruxa africana Dona Binga, que faz o panegírico de seu xarope milagroso, que tem o mesmo valor nutritivo que o leite do Luiz Sá pra Saúde, e é especial pra cura da Sífilis… e no final do show, na parte de baixo da página, Doutor Carcanha apresenta, suas desculpas pela condenável invasão da página pelos falaciosos representantes dos elixires para a suposta cura da sífilis. Enfim, um surpreendente capalovaro improvisado.

§ Olá, João, esses almanaques que você descobre, são uns Tesouros da Patafísica!… A alegria inocente do Luiz Sá, que se diverte com as mais pavorosas atrocidades!… Suas charges são impagáveis dos contrastes entre o traço leve e os temas trágicos. Lembro-me que nos seus últimos tempos, num leito de Hospital Cristão de Caridade, seguia desenhando suas ilustrações para os sermões dos padres aos pacientes moribundos…

Este Almanaque é uma delícia. As estampas do Luiz Sá em verde ganham um charme especial. O texto do Almanaque é uma preciosa mina de auto-paródias patafísicas. Ma-ra-vi-lha!! Tens um olho-de-lince, João, descobres preciosidades!… Bravooo!!

Você poderia fazer um paqueno folheto, com coisas do Luiz Sá. Sobretudo os cartuns que tratam de doenças graves e medidas de higiene. São impagáveis pelo contraste que estabelecem. O Luiz Sá, que sempre admirei, ora me traz à lembrança o Joâo Nariz (O Garimpeiro do Rio das Garças), uma história altamente ilustrada, praticamente um HQ, com um desenho de grande vivacidade, num livreco quadrado atarracado, deveria uns 12x12 cm, volume gorducho e compacto, tenho a impressão que daria pra fazer cineminha volteando as folhas com velocidade, e que contava a história dum garimpeiro, Zé Nariz, às voltas com bandidos que lhe queriam afanar a colossal pepita de ouro que ele havia descoberto, no pequeno riacho. Eu cheguei a te passar o Guinhol do Zé Bong?… Só recebi resposta de pessoas no estrangeiro… artistas direta ou indiretamente ligados ao Surrealismo.

§ Maravilha, Joäo!… Talvez um dia possamos publicar o Luiz Sá. Vá dando uma sondada de leve, quando a coisa estiver mais avançada, na tua posição de escritor da Agulha Revista de Cultura, poderás sugerir fazer um artigo ilustrado sobre o Luiz. Aposto que o Floriano topará. E depois então, sabe-se lá, um livrinho LS com tua apresentação na Editora da Agulha, o Floriano é bem atilado e vai sacar a importância do lance. Bem planejado o lançamento, poderá ter um surpreendente sucesso.

 

03 | LUIZ SÁ (Brasil, 1907-1979). Nosso artista convidado. Caricaturista brasileiro, criador dos personagens Reco-Reco, Bolão e Azeitona que, durante anos, apareceram na revista infantil O Tico-Tico. Foi também responsável pela criação de uma série de curtas de animação que ficou perdida por anos, As Aventuras de Virgulino. Seu desenho é caracterizado pelo uso quase exclusivo de linhas curvas, tendo quase todos os seus personagens os rostos bastante arredondados. Por volta de 1950 Luiz Sá muito contribuiu ilustrando panfletos educativos e relacionados com a saúde publicados pelo então Ministério de Educação e Saúde no Rio de Janeiro, como uma ilustração abaixo do texto “Quem come a galope, o intestino entope”. É um dos mais originais, significativos e emblemáticos artistas de toda a história do desenho de humor nacional, tendo sido o primeiro cartunista brasileiro com características de artista popular a conquistar visibilidade nacional. Desde os primeiros desenhos publicados ainda na imprensa cearense em 1927, passou pelos cartuns, ilustrações e histórias em quadrinhos produzidos para os mais diversos meios a partir de 1930.

Floriano Martins 

 

 

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ALBERTO CLAUDIO BLASETTI | Encuentro con Juan José Ceselli

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ANA CRISTINA JOAQUIM | Herberto Helder e a poesia surrealista portuguesa: aproximações da arte da performance

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ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO | A situação espiritual da poesia de Manuel de Castro

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APRIL D. FALLON | Not Merely Object and Image: The Surreal and Pre-Raphaelite Influences in Lorine Niedecker’s Poetry

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CLAUDIO WILLER | A poesia de Roberto Piva e o Surrealismo

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CLAUDIO WILLER | Uma série sobre surrealismo e cinema

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FLORIANO MARTINS | Max Ernst y los velos quitados en plena danza

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JOSÉ ÁNGEL LEYVA | Floriano Martins, Una aguja en la Red del mestizaje

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MERCEDES JIMÉNEZ DE LA FUENTE | La joven Leonora Carrington y el movimiento surrealista

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MONIQUE JUTRIN | Más allá de la vanguardia: Benjamin Fondane

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Luiz Sá




Agulha Revista de Cultura

Número 219 | dezembro de 2022

Artista convidada: Luiz Sá (Brasil, 1907-1979) 

editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com

concepção editorial, logo, design, revisão de textos & difusão | FLORIANO MARTINS

ARC Edições © 2022

 






                


 

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A comunhão de todos os tempos, por Floriano Martins, Agulha Revista de Cultura, dezembro 2022, Fortaleza, Brasil

 

∞ editorial | A comunhão de todos os tempos

 



00 | Após as séries “Partituras do Maravilhoso” (2021) e “Surrealismo Surrealistas” (2022) – que será concluída na edição de 25/12 –, a Agulha Revista de Cultura prepara para 2023 uma nova etapa dedicada à reflexão sobre os caminhos da criação artística em nossa época. Durante todo o ano publicaremos duas edições mensais, sempre aos dias 10 e 25 de cada mês, cada uma delas incluindo um total de 10 ensaios que deverão ter um mínimo de 3 mil caracteres. Sob o tema central, “A arte no Século XXI”, os ensaios deverão abordar o modo como política, economia, mídia, mercado, guerras, religiões etc., têm afetado a criação artística em sua perspectiva humanística e quais as projeções para um novo renascimento ao longo do presente Século. Evidente que as escolhas pelos elementos externos serão distintas em cada convidado, de acordo com sua experiência de vida e a natureza de seu trabalho. De igual modo, esses elementos podem ser outros, não devendo haver limitação em face de nossas sugestões. O que desejamos, em tese, é um ensaio sobre as relações entre arte e cultura.



As datas exigidas para entrega dos textos obedecem a uma agenda editorial, assim definidas:

30/12/2022 (para o primeiro trimestre 2023)

28/02/2023 (para o segundo trimestre 2023)

30/05/2023 (para o terceiro trimestre 2023)

30/08/2023 (para o quarto trimestre 2023)

Cada uma das referidas datas só poderá contar com a inscrição de 60 convidados.

Para o momento o que queremos de todos os convidados é que confirmem sua participação em nosso projeto e que definam a própria data de entrega de seu ensaio. Lembramos ainda que os ensaios não devem acompanhar imagens, pois cada uma das edições, como tem sido uma marca da Agulha Revista de Cultura em seus 21 anos de existência, apresenta uma mostra de 48 obras de um artista convidado. Agradecemos a todos, pela renovada cumplicidade.

 

01 | Alguém se surpreende com o modo como as luzes lambem a carne decomposta dos acidentes. Um manancial de sangue decerto altera a modulação do espanto. Tantas vezes a estrada acoberta os desastres que circulamos muitas vezes em volta de espectros de uma dor invisível. Não faltam ocasiões em que nos confundimos com aquele grande clandestino apontado por Aníbal Machado, o que descobriu que o tempo não faz nada às claras, e acabou por compreender que destruição e reconstrução se confundem, e que sacos e sacos vão se enchendo e esvaziando toda a vida. Não há outro sentido na ferocidade virtuosa com que nos enganamos com o destino. É inútil sair a procurar uma razão que se faça mais indigna do que essa. Novamente Aníbal Machado: O temor de que a sociedade possa um dia transformar-se fundamentalmente: Eu tenho defeitos próprios para vencer nesta. Não somos vitoriosos ou fabulosos. Perambulamos entre os pretextos formidáveis de um obscurantismo aviltante. Nossas perspectivas de vida e morte permanecem baseadas em estruturas econômicas, o dinheiro como meio de transporte de um tempo que progride quase sempre em direção contrária ao da comunhão de todos os povos.

 

02 | Em um livrinho mágico que é um dos marcos da entrada em cena do Surrealismo, já em 1919, André Breton e Philippe Soupault reclamam que o imenso sorriso da terra não nos é suficiente: necessitamos dos antigos desertos, das cidades sem arrebol e dos mares mortos. Por esta imagem de Les champs magnétiques começamos nossa viagem, pelo imperativo de descobrir outras dimensões de nossa passagem pela terra. O próprio Surrealismo nasce nos diários de bordo da escuna errante chamada Cabaret Voltaire, e suas intensas reuniões de viajantes.

O automatismo era ali a mecânica de cartas-colagens, a firmação do instante como o carvão propiciador da magia perene da existência humana. A verdadeira compreensão do tempo como um jogo sem fios. A comunicação sublime do eu com seus impronunciáveis outros. Nas páginas da revista Littérature o mundo duplo, que levamos dentro e fora, começa a viajar.

Uma viagem que leva em si tanto dos lugares de encontro como da geografia do espírito de cada um de seus participantes. As multiplicações criativas dos abismos pessoais e o fluxo dos olhares em novas formas de explorar o mundo. Nova teoria de horizontes. Uma metafísica do desconhecido. Por aí a vida vai alcançando sua entranhável altivez polimorfa.

Assim nasce o Surrealismo. Com esse sentido incessante de buscar novas terras. Como um centro de atração dos viajantes mais empenhados em desvelar novos truques de união entre imagem e palavra. O entusiasmo de ir e vir por mundos inapagáveis. Este centro, por impulso de vitalidade, desde seu íntimo tem se afirmado como uma rede de canais em perpétuo movimento. Seu nome não é Zurich ou Paris, mas sim um cabaré e logo um café e mais, as ruas e galerias e portos.

Os jogos e criações coletivas, as alocuções do entusiasmo comum, um sem número de atividades enriquecedoras que permitiam levar seu espírito na bagagem de regresso a vários países do mundo. Desse modo o Surrealismo atracou em outros continentes, chegou a Adelaide, Lima, Tóquio, Rabat etc. O Surrealismo chega ao Japão pelas mãos de Nishwaki Junzaburo (1894-1982) e seu encontro com Takiguchi Shuzo (1903-1979), os dois poetas e artistas plásticos, ou na Inglaterra, graças a Roland Penrose (1900-1984) e a formação de um grupo com David Gascoyne (1916-2001), ou no Peru, com o retorno de César Moro (1903-1956) e sua amizade com Emilio Adolfo Westphalen (1911-2001), e assim foi por todas as partes. Porém quase igual a este modo de impulso do movimento também contribuiu a 2ª Guerra Mundial e seus exílios inevitáveis.

Com o tempo se foi descobrindo que era impensável uma prática ortodoxa do Surrealismo, pois tanto se registravam em seu curso ações grupais como isoladas. Além do mais, as viagens propiciaram uma reciprocidade que foi pouco a pouco agregando novas perspectivas, alterando os erros de formação, sem deixar de se basear em sua tríade fundamental: o amor, a poesia, a liberdade. Era necessário livrar-se dos eufemismos da ortodoxia para criar novas visões de si mesmo e do mundo. Nisso o Surrealismo cresceu ao ponto de ser o movimento cultural mais importante do século XX.

Um de seus erros clássicos derivou da rejeição de André Breton de conhecer outros idiomas além do francês. Com isto pôs em cena uma presença mais plástica do que poética no surrealismo internacional, deixando sob certa obscuridade a grandeza da obra renovadora de muitos de seus poetas. O próprio Breton, acerca da imagem surrealista, anotou no primeiro manifesto:

 

Para mim, não o nego, a mais forte é a que apresenta o mais alto grau de arbitrariedade; a que requer mais tempo para ser traduzida em linguagem prática, seja por conter uma enorme dose de contradição aparente, seja por um de seus termos estar curiosamente oculto, seja por, tendo-se apresentado como sensacional, parecer que termina fracamente (que fecha, bruscamente, o ângulo de seu compasso), seja por tirar de si mesma uma justificativa formal derrisória, seja por ser de natureza alucinatória, seja por, muito naturalmente, conferir ao abstrato a máscara do concreto ou vice-versa, seja por implicar a negação de alguma propriedade física elementar, seja por provocar o riso.

 


Esta força de variados timbres provém tanto da imagem plástica quanto da imagem poética. Seu valor transcendente radica na profundidade da imaginação. Bem o compreendia Benjamin Péret, ao dizer que a poesia é a forma natural de pensamento da humanidade, ou seja, a poesia como explosão do pensamento em seu ambiente tanto poético quanto plástico. O poema, através da visão surrealista, alcançou a transmissão das verdades mais essenciais ao homem – aquelas que estão feitas de permanente risco e aventura sem fim.

Poetas como César Moro, Enrique Molina, Ludwig Zeller, descobriram uma chave de raízes entrelaçadas que os conduz aos mais altos graus da criação poética em língua espanhola. O mesmo se pode dizer dos gregos Odisseas Elytis, Andreas Embirikos e Matsi Chatzilazarou. De igual modo podemos pensar no japonês de Kansuke Yamamoto, Kitasono Katue e Takiguche Shuzo, ou no inglês de Max Harris, Joyce Mansour ou Philip Lamantia. Os exemplos se reproduzem em muitos outros idiomas e essa chave radica não no antagonismo entre mundo auditivo e mundo visionário – como defendia Breton, elegendo o auditivo como a forma maior de concepção do poético –, mas sim como uma fusão dos dois e sem esquecer os demais sentidos.

Ainda estamos por conhecer as esferas encadeadas do Surrealismo na poesia de incontáveis países. As janelas abertas dessa tempestade que avança muito além dos conceitos de tempo e espaço. Um século se passou desde a escritura de Les champs magnétiques e o palco de maravilhas que foi a revista Littérature. Um século desde a compreensão dada pelas colagens de uma nova realidade. Um século desde a aventura transcendente dos jogos coletivos, onde a verdadeira poesia se faz no reconhecimento – jamais na submissão – do outro. Essa alquimia dos sentidos atua como uma prova a mais da vastidão do pensamento, como as letras de fogo que ampliam nossa permanência na terra, e sua esfera mágica – a soma do angélico e do demoníaco que brinda o Surrealismo – é o que há construído tudo em nosso tempo.

 

03 | A nudez e o teatro celebram uma peregrinação mística pelo tabuleiro da existência. De um lado a transfusão perene dos fluidos da inocência e da luxúria, de outro a representação da essência do próprio ser. Ao escrever sobre a fotografia de Sara Saudková (República Tcheca, 1967) – artista convidada da presente edição de Agulha Revista de Cultura, e cabe mencionar a generosidade com que nos recebeu –, o crítico Emilio Bellu observa que ela mostra o poder do relacionamento tcheco com o corpo, a sexualidade e a curiosidade que são difíceis de encontrar em outras culturas. Sua obra plástica é ainda muito ligada à de Jan Saudek, com quem realizou muitos trabalhos comuns – Fiquei completamente surpresa com o mundo dele e sua personalidade me atraiu muito –, porém se deixamos pousar livremente o olhar nas fotos de Sara, no que pese a coincidência da teatralidade, das fotografias encenadas, compostas como tableaux vivants, logo percebemos que sua dramatização fotográfica não contempla a abjeção que tanto singulariza a estética de Jan. Ao contrário, em Sara, o erotismo, acentuado em seu íntimo pela força expressiva do uso de fotos em preto e branco, procura imprimir em sua linguagem animada a sensibilidade feminina em busca de uma simbologia própria, onde o desejo e a maternidade são personagens valiosos. Sara, que também tem escrito alguns romances, destaca, no tocante ao este equilíbrio arriscado que consegue imprimir em sua fotografia, que, na montagem dos cenários, todo prazer é redimido com algum problema ou tristeza, cada problema é substituído por alegria e felicidade. A densidade surrealista de sua obra, em especial no plano de sua criação livre, é intensamente ampliada pelo humor e a graça de uma linguagem que se mostra ser outra, inesperada e reveladora. 


Floriano Martins 



 





 

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ALFREDO MARGARIDO | Surrealismo negro

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ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO & MANUEL SIMÕES | Duas vezes Carlos Loures

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2022/11/antonio-candido-franco-manuel-simoes.html

 

CARLOS M. LUIS | Eros, violencia y surrealismo

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2022/11/carlos-m-luis-eros-violencia-y.html

 

CÉSAR BISSO | Las razones de Roberto Arlt para inventar otra sociedad – Aproximación a su novela Los siete locos

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2022/11/cesar-bisso-las-razones-de-arlt-para.html

 

DARRAN ANDERSON | David Gascoyne, Surrealism and the Vanishing Muse

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2022/11/darran-anderson-david-gascoyne.html

 

FLORIANO MARTINS | Ernest Pepín, Caribe y Surrealismo

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2022/11/floriano-martins-ernest-pepin-caribe-y.html

 

JOSÉ ÁNGEL LEYVA | Armando Romero, movimiento y quietud de la poesía

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2022/11/jose-angel-leyva-armando-romero.html

 

KIRILL KOBRIN | Las tentaciones de Pierre Molinier

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2022/11/kirill-kobrin-las-tentaciones-de-pierre.html

 

GUILLERMO AGUIRRE MARTÍNEZ | La huella de lo sagrado en la poesía de Juan-Eduardo Cirlot

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2022/11/guillermo-aguirre-martinez-la-huella-de.html

 

VALÉRIA METROSKI DE ALVARENGA | A cidade dos mortos: o mundo imaginário do artista polonês Zdzislaw Beksinski

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Sara Saudková


Agulha Revista de Cultura

Número 218 | novembro de 2022

Artista convidada: Sara Saudkovà (República Tcheca, 1967) 

editor geral | FLORIANO MARTINS | floriano.agulha@gmail.com

editor assistente | MÁRCIO SIMÕES | mxsimoes@hotmail.com

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